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"Senti humilhação e dor": Pioneira no futebol é proibida de entrar no clube ’Amelia Castillos’ de Madrid que fundou 09 Maio 2021

A espanhola Amelia del Castillo foi em 1963 a primeira mulher fundadora dum clube de futebol no seu país e uma raridade em todo o mundo. Em 2000 a primeira treinadora e presidente foi homenageada com a atribuição do seu nome ao estádio municipal de Pinto, a 14 km do centro de Madrid. Esta semana, 58 anos depois de fundar o clube, foi impedida de entrar "porque só entra quem pertence ao clube". "Senti humilhação e muita dor", diz a quase octogenária.

Entrevistada por ocasião do cinquentenário do clube, Amelia contou que desde que se conhece gosta de futebol, que na sua primeira-comunhão levava um alfinete do Atlético de Madrid. Mas foi o acaso que fez dela pioneira na fundação, treino e direção de um clube.

"Não foi uma coisa premeditada, foi obra do acaso. No bairro onde vivia havia mais rapazes que raparigas e eu, que gostava de jogar, jogava com eles. Fazíamos competições entre nós e a coisa corria mais ou menos".

"Um dia soubemos que ia haver um campeonato em Getafe" — cidade industrial e comercial da área metropolitana de Madrid — "e decidimos ir, para tornar o nosso clube um pouco mais oficial".

"Ninguém nos criou obstáculo, mas era preciso uma pessoa de mais de 18 anos. Era 1961, eu tinha 18 anos e tornei-me uma espécie de responsável da equipa. Dois anos depois, tornámo-nos um clube federado".

Pôde ser treinadora mas não jogadora

Nesse campeonato organizado pela ’Frente de juventudes en Getafe’, estava proibida de jogar — por ser mulher. A interdição (que porém Amelia contornou) estendia-se a "treinadoras, delegadas ou árbitras".

Os regulamentos eram no entanto omissos sobre a direção: "Não havia nada a proibir que as mulheres chegassem à presidência". ​

Foi assim que em 1963 fundou oficialmente a equipa de futebol do município madrileno de Pinto, "A Flecha de Pinto", não obstante a lei exigir que as mulheres tinham de obter autorização do pai ou do marido para quase tudo.

A equipa precisava de um treinador, ela foi-o embora sem poder fazer cursos de treinador "que eram só para homens". "Fui treinadora porque tinha conhecimentos técnicos para isso, como praticante de ginástica" a que juntou os conhecimentos em aulas teóricas a que lhe permitiram assistir.

Também no campo pelado — que só foi relvado em 2000 na altura em que deram o nome dela ao estádio (foto inserida ao alto) — havia outras dificuldades: "Era insultada sempre que me viam a exercer uma das três funções que tive de assumir como delegada, como treinadora e como presidente".

A septuagenária relembra que apesar do seu espírito combativo, e a certeza de que estava a abrir caminho a outras mulheres, sofria muito. Recebia insultos em cada deslocação da equipa. Perdeu amigas, porque as mães lhes proibiam de estar com a "maria-rapaz".

"Era geral a reprovação contra uma mulher relacionada dessa maneira com o futebol". ​

Apoio do Atlético de Madrid e fama mundial

Adepta desde criança do mais prestigiado clube espanhol, Amelia decidiu escrever à direção do Atlético de Madrid. Era um pedido para que comprassem as rifas com que estavam a procurar financiar o seu clube de bairro.

Para sua surpresa, respondeu-lhe o presidente Vicente Calderón que queria falar com ela.

A partir daí, a equipa recebeu do Clube Atlético de Madrid apoio material, técnico e em cuidados de saúde. A iniciativa de Amelia ajudou a consolidar o clube, doravante Clube Atlético de Pinto.

Nos anos seguintes, a sua fama espalhou-se. As principais cadeias de televisão, entre as quais a CBS dos Estados Unidos, dirigiram-se a Madrid para entrevistar Amelia Castillos.

Alcaide obriga-a a demitir-se: "O futebol não é coisa de mulheres"

Em 1975, após vários anos a dirigir o clube, o presidente do município forçou Amelia a demitir-se ameaçando formar outro clube se ela não saísse.

"Dirigir o futebol não é coisa de mulheres", disse-lhe o alcaide (presidente de Câmara) de Pinto, em 1975, segundo relembra Amelia del Castillo numa dessas entrevistas sobre como foi a sua vida de pioneira no futebol.

Fontes: Más Fútbol.es/Twitter.

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